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Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex

domingo, 29 de setembro de 2013 | 1 comentário
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Título: Holocausto Brasileiro
Autora: Daniela Arbex
Editora: Geração
Páginas: 255
Ano: 2013
Sinopse: Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.
 
Falar de Holocausto Brasileiro não é fácil. Mas é necessário. É complicado pelo conteúdo abordado, pelas vivências narradas. Há momentos que você quer largar o livro, mas ao mesmo tempo você quer saber aonde isso vai parar. Pelo menos foi assim que me senti ao ler o livro da Daniela.
No Brasil, durante o governo do Vargas conhecido como Estado Novo foi instaurado uma medida de higienização das ruas. Nesse contexto surge as instituições psiquiátricas, como foi o caso de Barbacena, em Minas Gerais. O principal intuito desses lugares era levar aquelas pessoas que eram consideradas fora do normal da sociedade. Logo, homossexuais, mendigos, epilépticos, meninas grávidas pelos patrões entre outros iam para esses lugares sem saber aonde eles realmente iam. Além disso, eram tachados de loucos pela sociedade e obrigados a sofrer tratamentos horríveis e viver em condições precárias. Entretanto, não havia pessoas especialistas nesses lugares para diagnosticar se as pessoas eram realmente loucas. Se você não a quer na sociedade, leve-a para lá.  Apenas a partir da década de 1960 que veio a tona o interior dessas instituições, e se começou a entrar pessoas especializadas.
Barbacena é o maior desses manicômios, e está localizado em Minas Gerais. Foi nesse cenário que Daniela Arbex, jornalista se encaixa e adentra esse universo. Através de relatos, fotos, ela nos conta um pedaço daquele que pode ser considerado um momento crítico da história brasileira e que não se é tão comentado quanto deveria. Narra de maneira breve, o cotidiano desses pacientes, marcados pela dor e hostilidade. A fome, as sessões de eletrochoque, as vestimentas precárias.
Conta-nos alguns casos, como a mulher que tentava modificar aquele ambiente hostil para tornar a vida de alguns dos pacientes melhor de ser vivida, ou o caso da venda dos cadáveres feita pela instituição para as faculdades de medicina.  As fotos que acompanham a narrativa dão um toque de denúncia e ao mesmo tempo reflexão.
Apesar disso, ela nos conta alguns outros casos que se tornam emocionantes ao lê-los, como o homem que descobriu após alguns anos que sua verdadeira mãe era paciente da colônia, e que decide ir atrás dela. Ou o caso que a ex-paciente foi atrás do filho que fora separado dela durante a vida na colônia (como esses hospitais eram chamados).
Daniela, em determinado momento, aborda o momento em que os jornalistas puderam adentrar esse cenário de horror, e puderam trazer ao mundo as atrocidades realizadas. Foi um momento importante, porque se pode repensar a maneira com que essas pessoas eram tratadas. As falas de alguns jornalistas aparecem ao longo da narrativa, comparando Barbacena como um campo de concentração nazista, ou então que foi a pior coisa que viram na vida.
Fugindo um pouco de Barbacena, mas trazendo aos dias atuais, é interessante pensar essa questão. Para quem não sabe, sou graduando em História, e participo de um projeto que busca preservar a memória de uma instituição aqui de Florianópolis: o antigo Hospital Colônia Santa, hoje Instituto Psiquiátrico de Santa Catarina. O projeto se desenvolve através da higienização dos prontuários da década de 1940 até 1970, período “sombrio”, com o intuito de trazer para a sociedade a existência dela, além do que pensar até que ponto o ser humano pode chegar. Toda semana vamos para lá, e realizamos o trabalho. Há também as conversas com os pacientes, sendo que muitos que estão lá há muito tempo, e nessas conversas que a gente acaba refletindo mais. Percebemos a necessidade dos pacientes em conversas com alguém de fora, como maneira de ser reintroduzido na sociedade. Além disso, a dificuldade para isso ocorrer. É tão gratificante poder fazer parte desse meio, ver outro lado da história que não é tão popular quanto deveria. Repensar nossas atitudes, repensar a maneira de enxergar o outro. Tomo as palavras de uma professora, que em certa palestra, quando foi comentar a respeito do porque de realizar trabalhos como esse, ela disse: “é uma maneira de realizar justiça pelo que foi feito a ele”. E é de dessa maneira que me sinto quando vou lá. Quando higienizo os prontuários, quando vejo os pacientes. Muitos não tinham diagnóstico de loucura, apenas eram pessoas consideradas “fora do normal” pela sociedade da época. E acabaram sofrendo tudo o que sofreram.
O livro de Daniela é mais que recomendado: leitura obrigatória. A narrativa é tranquila, sem grandes dificuldades. O que dificulta um pouco é o próprio conteúdo em si, que as vezes é pesado. Faltou um pouco a autora contar como ela construiu a história, baseado em quais fontes. Mas mesmo assim é um livro válido de ser lido. Como disse anteriormente, e torno a dizer, acabamos vendo um outro lado da história tanto esquecido na nossa sociedade, mas que temos que resgatar para poder pensar a situação dos dias atuais.

O Lado Bom da Vida - Matthew Quick

sexta-feira, 22 de março de 2013 | 2 comentários
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Título: O Lado Bom da Vida
Autor: Matthew Quick
Editora: Intrinseca
Páginas: 256
Ano: 2013
Sinopse: Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um "tempo separados". Tentando recompor o quebra-cabeças de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com seu pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes da internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida. Uma história comovente e encantadora, de um homem que não desiste da felicidade, do amor e de ter esperança.
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O lado bom da vida foi o primeiro livro que vi sendo lançado em 2013. Sério, podem acreditar. Depois do filme lançado, as indicações aos prêmios sendo feitas, só faltava o livro. Já me chamou a atenção desde o inicio, mas a principio não realizaria a leitura. Até que encontrei num sebo por R$ 12,00. Eu sei que no final paguei míseros R$ 8,00 pelo livro. E em ótimas condições. Como tenho costume de ler o livro antes de ver o filme (tenho vários livros que li e não assisti ao filme), O lado bom da vida foi um desses. Mas vamos ao livro.
 
Pat Peoples acaba de sair de uma clinica de internação. Acha que sua vida foi programada por Deus, e que sua ex-mulher, Nikki, vai voltar para ele. Volta a morar com os pais, mas se depara com uma situação um tanto diferente: seus amigos estão estranhos (ocupados com as novas famílias, quero dizer), como se o excluíssem, seus pais não falam nada de quando ele foi internado. Além disso, seu time está perdendo no campeonato, e seu novo psiquiatra parece recomendar o adultério como forma de terapia. Mesmo assim, Pat insiste em ver o lado bom da vida.

Loucura é um tema pouco recorrido hoje na literatura. Talvez por ser um tema polêmico, ou até mesmo por muitas vezes não chamar a atenção. Lembro que falei a mesma coisa quando resenhei Os 13 porquês, há um ano. Claro que o tema mudava o pouco, mas a ideia é a mesma. Aqui Matthew já ganha pontos positivos comigo. Conseguiu transformar um tema tão contemporâneo e pouco discutido em algo divertido e encantador.

Pat é uma ótima pessoa. Determinação é o que não falta nele. Depois que sai da internação, ele se dedica ao máximo a fazer exercícios físicos, decide ler todos os livros clássicos, que ele achava chato. Tudo para tentar reconquistar Nikki. Para ele, era questão de tempo.
 
Nesse cenário, temos Tiffany, vizinha e conhecida da família. Acabara de perder o marido, estava de luto, e conhece Pat. A principio se estranham, talvez pelo gênio forte e jeito diferente de Tiffany, mas aos poucos se tornam amigos. Levanto outra ressalva para Tiffany, que foi uma ótima personagem também. Apesar do jeito estranho e mandão, Tiffany é uma personagem divertida e cativante.

Gostei muito da narrativa de Matthew. Divertida, encantadora e comovente, acaba mostrando Pat não como um louco, mas sim como um homem que não perde as esperanças. Isso foi o que mais me encantou na história. Sabemos que sua loucura está ali, presente, mas ele não demonstra isso.  Apenas mostra que vale a pena viver o lado bom da vida.
 
Temos momentos emocionantes, outros mais tensos, mas um final admirável. Torcemos pelo casal, queremos descobrir o que aconteceu com Pat antes de ele ir para a clinica. São tantas coisas positivas que o livro oferece que não tem como não gostar. Matthew conquista pelo seu jeito de contar histórias. O lado bom da vida foi um livro que fiquei com pena quando terminou, de tão gostosa que era a leitura. Com certeza entrou para os favoritos! Fiquei super empolgado para assistir ao filme!